O Mundo Deixou de Ser um Jogo de Dois
28 de março de 2026

Durante anos, a história da política global foi apresentada como uma grande rivalidade. Os Estados Unidos e a China são vistos como dois titãs numa luta pelo domínio, arrastando o resto do mundo para as suas respetivas órbitas. Esta narrativa é simples, cativante e cada vez mais enganosa. Embora Washington e Pequim tenham certamente uma grande influência, a mudança mais significativa na ordem internacional não é o endurecimento de dois blocos, mas sim o surgimento de um terceiro grupo poderoso e independente: as chamadas potências médias. Estas nações recusam-se a escolher um lado e, ao fazê-lo, estão a reescrever as regras da diplomacia global.
Esta não é uma história de neutralidade passiva. É uma história de independência ativa e estratégica. Vejamos o caso da Turquia, um membro da OTAN que desafiou os seus aliados ocidentais para negociar a crucial Iniciativa de Cereais do Mar Negro com a Rússia e a Ucrânia. Ou consideremos a Índia, um membro importante do diálogo de segurança Quad, liderado pelos EUA, que, ao mesmo tempo, se tornou um dos maiores compradores de petróleo russo com desconto após a invasão da Ucrânia. Na América do Sul, o Presidente do Brasil, Lula da Silva, resistiu à pressão para isolar Moscovo, propondo em vez disso um “clube da paz” de nações não alinhadas para mediar o conflito. Estes países não estão a agir como peões num tabuleiro de xadrez; estão a tornar-se jogadores por direito próprio, defendendo os seus interesses nacionais com uma confiança que seria inimaginável há três décadas.
A ascensão deste grupo influente não é um acidente. É o resultado de profundas mudanças estruturais na economia global e de uma crescente desilusão com as potências estabelecidas. Primeiro, o peso económico mudou. Países como a Indonésia, o Brasil e a Índia têm agora economias enormes que lhes dão uma alavancagem significativa. Um relatório de 2021 da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) destacou que as economias emergentes deverão ser responsáveis pela maior parte do crescimento global nas próximas décadas. Este poder económico traduz-se diretamente em influência diplomática. Já não são apenas mercados a serem conquistados, mas sim potências a serem cortejadas.
Além disso, décadas de globalização criaram uma teia de interdependência que torna a escolha de um lado economicamente dolorosa, se não impossível. Um país como o Vietname, por exemplo, depende das cadeias de abastecimento chinesas e dos mercados de consumo americanos. Forçá-lo a alinhar-se exclusivamente com um deles seria uma forma de autossabotagem económica. Esta realidade dá às potências médias um forte incentivo para manterem relações com todos. A isto soma-se um ceticismo crescente em relação à liderança das superpotências. A percebida imprevisibilidade da política externa americana nos últimos anos, combinada com a postura diplomática cada vez mais agressiva da China, fez com que a lealdade a qualquer um dos lados parecesse uma aposta arriscada. A independência tornou-se o caminho mais seguro e pragmático.
As consequências desta mudança multipolar são profundas. Torna a diplomacia internacional muito mais complexa e imprevisível. Os dias em que um acordo entre Washington e outra grande capital podia definir a agenda global estão a desaparecer. Construir consenso em questões importantes, desde as alterações climáticas à não proliferação nuclear, exige agora a adesão de um grupo de interesses muito mais vasto e diversificado. Isto pode ser frustrante para as potências tradicionais, habituadas a ditar as regras, como se viu na dificuldade que as nações ocidentais enfrentaram para construir uma coligação verdadeiramente global contra a Rússia.
No entanto, este novo cenário também cria oportunidades. Com mais potências na mesa, há uma maior probabilidade de diplomacia criativa e de soluções regionais para problemas regionais. Os esforços da União Africana para mediar conflitos no continente, ou da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) para gerir as tensões no Mar do Sul da China, são exemplos de regiões a assumirem um maior controlo da sua segurança. Esta difusão de poder pode funcionar como um travão às ambições das superpotências, criando um sistema internacional mais equilibrado, embora mais confuso. As potências estabelecidas devem adaptar-se a esta nova realidade. A antiga abordagem de exigir lealdade e fazer ultimatos já não funcionará. Pelo contrário, a influência deve ser conquistada através de parcerias genuínas, respeito e da vontade de ouvir as preocupações destas nações em ascensão em temas que lhes são caros, como o alívio da dívida, o financiamento para o desenvolvimento e a reforma de instituições globais como o Conselho de Segurança da ONU.
O mundo não se está a dividir de forma clara em dois. Está a fragmentar-se em múltiplos centros de poder. A narrativa simples de uma nova Guerra Fria é uma ilusão reconfortante que nos distrai da verdade mais complexa. O futuro da ordem internacional não será decidido apenas em Washington ou em Pequim. Será moldado em Nova Deli, Ancara, Brasília e Jacarta, por líderes que decidiram que a melhor forma de navegar num mundo de gigantes é manterem-se firmes sobre os seus próprios pés.