Jovens perdem a fé na democracia muito antes de irem votar
2 de abril de 2026
O problema não é apenas a baixa participação eleitoral. Em muitas democracias, os jovens adultos sentem que a política não os ouve, e essa sensação pode levar a um afastamento permanente.
É fácil assumir que os jovens simplesmente não se interessam por política. A imagem é conhecida: baixa participação nas urnas, pouca lealdade partidária e uma frustração que aparece mais online do que nas eleições. Mas o problema mais profundo não é apatia. É alienação. Em muitas democracias, os eleitores mais novos estão atentos, acompanham os debates públicos e preocupam-se com o futuro. O que eles duvidam cada vez mais é se a política formal ainda lhes consegue dar respostas.
Esta distinção é importante. Quando as pessoas deixam de votar por estarem ocupadas ou mal informadas, os partidos ainda podem tentar chegar até elas. Quando deixam de acreditar que o sistema as ouve, o dano é mais profundo. Estudos na Europa e na América do Norte mostram que os adultos mais jovens tendem a confiar menos nos partidos políticos, nos parlamentos e nos governos do que os cidadãos mais velhos. Inquéritos do Pew Research Center, do Eurobarómetro e da OCDE têm revelado repetidamente um padrão claro: os jovens dizem com mais frequência que os políticos eleitos não se importam com o que pessoas como eles pensam.
Os números contam uma história preocupante. Nas eleições para o Parlamento Europeu de 2024, a participação dos jovens aumentou em alguns países, mas continuou desigual. Partidos de extrema-direita e antissistema tiveram ganhos notáveis entre os eleitores mais jovens em vários estados. Nos Estados Unidos, a participação de eleitores com menos de 30 anos melhorou nas últimas eleições nacionais em comparação com padrões anteriores, segundo dados do Center for Information & Research on Civic Learning and Engagement da Tufts University. No entanto, essa melhoria não trouxe uma confiança duradoura nas instituições. As sondagens continuam a mostrar pouca confiança no Congresso, nos partidos e no desempenho do governo entre os jovens americanos. Na Grã-Bretanha, o estudo de longa data da Hansard Society, o Audit of Political Engagement, também documentou baixa confiança e a sensação de que o sistema político é manipulado a favor dos poderosos.
Isto não é uma contradição. Os jovens podem sentir-se motivados por uma eleição específica e, ao mesmo tempo, acreditar que o sistema em geral está a falhar. Podem votar por defesa, taticamente ou por medo da alternativa. Isso continua a ser participação. Mas não é o mesmo que ter fé na democracia.
Várias forças estão a impulsionar esta mudança. A primeira é a realidade económica. Em muitas democracias ricas, os jovens adultos entraram na vida política durante anos marcados pela austeridade, falta de habitação, dívidas estudantis, estagnação salarial e trabalho precário. País após país, a promessa de que cada geração viverá melhor do que a anterior enfraqueceu. No Reino Unido, o acesso à habitação tornou-se um dos exemplos mais claros. Dados do Institute for Fiscal Studies e da Resolution Foundation mostraram como a aquisição de casa própria entre os jovens adultos caiu drasticamente em comparação com as gerações anteriores. Nos Estados Unidos, dados da Reserva Federal apontaram para o aumento das disparidades de riqueza por idade, enquanto os custos de arrendamento e o peso da dívida aumentaram. Quando a política promete oportunidades, mas a vida diária parece menos estável, a desconfiança é uma resposta racional.
A segunda força é a velocidade. Os jovens eleitores vivem num ambiente mediático que os expõe a conflitos, escândalos e contradições ao longo de todo o dia. Eles veem legisladores a fazer campanha com uma mensagem e a governar com outra. Veem questões importantes reduzidas a guerras de imagem. Também veem as mudanças políticas a acontecer de forma desigual e, muitas vezes, tarde demais. A política climática é um exemplo claro, mas não o único. Em matéria de habitação, educação, saúde e privacidade digital, muitos jovens cidadãos viram os líderes reconhecerem crises durante anos sem apresentarem resultados à altura do problema. O fosso entre o discurso e a ação tornou-se um dos maiores professores da política moderna.
A terceira força é a própria representação. Em muitas democracias, os órgãos eleitos continuam a ser mais velhos do que o público. Isso não significa que os políticos mais velhos não possam representar os eleitores mais jovens. Muitas vezes, fazem-no. Mas as diferenças de idade podem moldar prioridades, linguagem e o sentido de urgência. A investigação sobre representação descritiva sugere há muito tempo que, quando as pessoas raramente veem líderes com experiências de vida semelhantes, a confiança pode diminuir. Em termos práticos, os jovens adultos ouvem muitas vezes a política ser discutida através de categorias que não correspondem às suas vidas: carreiras estáveis, rendas acessíveis, formação de família simples ou percursos de reforma previsíveis. Para muitas pessoas com menos de 35 anos, essas premissas já não se aplicam.
Os partidos políticos reagiram, mas muitas vezes de forma superficial. Investem em estratégia digital, contacto com influencers e branding juvenil. Prometem ir ao encontro dos jovens eleitores onde eles estão. No entanto, a comunicação não substitui a partilha de poder. Um vídeo curto sobre participação cívica não terá grande impacto se as listas de candidatos, os processos de decisão política e as estruturas internas dos partidos permanecerem fechadas. Em muitos países, as juventudes partidárias existem, mas têm pouca influência real. Oferece-se consulta, mas as decisões são tomadas noutro lugar.
Isto é importante porque os hábitos democráticos formam-se cedo. Os cientistas políticos argumentam há muito tempo que o voto e a confiança são moldados pelas primeiras experiências com a vida pública. Se as primeiras lições de uma geração são bloqueios políticos, escândalos de corrupção, custos de habitação impossíveis e participação simbólica, esses sentimentos podem perdurar. Uma pessoa que falha uma eleição não está necessariamente perdida para a democracia. Uma pessoa que conclui, aos 24 ou 25 anos, que a política é sobretudo uma encenação, pode manter essa visão durante décadas.
Existem também consequências mais amplas. O afastamento nem sempre se manifesta como silêncio. Pode transformar-se em apoio a figuras "outsider" que prometem destruir as instituições em vez de as reparar. Pode alimentar teorias da conspiração. Pode também reduzir a base social da própria democracia, dando a grupos mais velhos, mais ricos e mais organizados uma influência ainda maior sobre as decisões públicas. Isso cria um círculo vicioso. As políticas passam a refletir os interesses de quem vota e faz lóbi de forma mais consistente, o que dá aos cidadãos mais jovens ainda menos razões para acreditar que o sistema funciona para eles.
Não há uma solução única, mas há pontos de partida claros. Primeiro, os governos precisam de tratar a pressão material como uma questão democrática, não apenas económica. O acesso à habitação, a dívida estudantil, a segurança salarial, o apoio à infância e os transportes são frequentemente discutidos como áreas políticas separadas. Para os eleitores mais jovens, fazem todos parte da mesma pergunta: pode este sistema proporcionar uma vida adulta viável? Se a resposta continuar a ser não, nenhuma mensagem cívica conseguirá reconstruir a confiança.
Segundo, os partidos precisam de abrir os canais de candidatura mais cedo e de forma mais séria. Isso significa não apenas recrutar alguns rostos jovens para as aparências, mas também dar espaço em lugares elegíveis, comissões e cargos de liderança. Alguns países experimentaram quotas para jovens dentro das estruturas partidárias ou assembleias locais. Estes esforços variam, mas pelo menos reconhecem o problema central: a confiança cresce quando a participação traz poder real.
Terceiro, a educação cívica não deve terminar com a explicação de manual sobre como uma lei é aprovada. Deve incluir contacto prático com o governo local, orçamentação, audiências públicas e resolução de problemas comunitários. A investigação em vários sistemas democráticos revelou que as pessoas são mais propensas a participar quando têm experiência direta com instituições que realmente respondem. A política local pode parecer pequena, mas é muitas vezes aí que a confiança democrática é construída ou destruída.
A história reconfortante diz que os jovens vão superar a sua frustração. Muitos acabam por votar mais à medida que envelhecem, e alguns tornam-se mais ligados às instituições com o tempo. Mas confiar nesse padrão é arriscado. Os jovens adultos de hoje não estão apenas a passar por uma fase da vida. Estão a reagir a uma era política marcada pela instabilidade, desigualdade e promessas quebradas. Se os sistemas democráticos querem a sua lealdade, terão de a conquistar.
O verdadeiro sinal de alarme não é que alguns jovens eleitores se estejam a desligar. É que muitos olham diretamente para a política e concluem que esta os vê como um público, não como um eleitorado. Uma democracia pode sobreviver à raiva. Pode sobreviver ao protesto. Pode até sobreviver a períodos de baixa confiança. O que não pode ignorar em segurança é uma geração que aprende, cedo e repetidamente, que o poder público pertence a outra pessoa.
Source: Editorial Desk