O software moderno está, discretamente, a tornar obsoletos os seus potentes dispositivos
29 de março de 2026

É uma das experiências mais familiares e frustrantes da vida moderna. Compra um novo smartphone ou portátil e, durante alguns meses, parece incrivelmente rápido. As aplicações abrem instantaneamente, os sites carregam num piscar de olhos e a experiência é totalmente fluida. Mas depois, de forma lenta e quase impercetível, começa a surgir uma lentidão. O aparelho que antes parecia um salto para o futuro agora tem dificuldades com as mesmas tarefas que o antigo que substituiu. Muitos de nós culpam o hardware, assumindo que os componentes já estão a envelhecer. No entanto, a verdade é muitas vezes bem mais simples e preocupante: o problema não é o seu aparelho estar a ficar mais lento, mas sim o software que ele usa estar constantemente a ficar maior, mais complexo e menos eficiente.
Este fenómeno não é apenas uma sensação. É uma tendência bem documentada que vai contra a história de progresso tecnológico que nos costumam contar. Durante décadas, a indústria tecnológica foi impulsionada pela Lei de Moore, a observação de que o número de transístores num microchip duplica aproximadamente a cada dois anos, o que leva a ganhos exponenciais no poder de computação. No entanto, uma observação menos famosa, mas igualmente importante, conhecida como Lei de Wirth, afirma que o software fica mais lento a um ritmo mais rápido do que o hardware se torna mais rápido. As provas estão por todo o lado. O tamanho da instalação do Microsoft Windows cresceu de cerca de 30 megabytes, no Windows 95, para mais de 60 gigabytes no Windows 11. Aplicações móveis populares que antes ocupavam uma pequena parte do armazenamento de um telemóvel exigem agora centenas de megabytes, e as atualizações acrescentam ainda mais peso por alterações que parecem pequenas.
O que está a causar este "inchaço" do software? As causas estão na economia e nas práticas do desenvolvimento de software moderno. Para acompanhar os rápidos ciclos de inovação, os programadores usam frequentemente "frameworks" complexas e bibliotecas de código pré-escrito. Estas ferramentas permitem-lhes criar e lançar produtos mais depressa, mas, muitas vezes, vêm com código extra que acrescenta peso desnecessário e reduz o desempenho. Esta troca — dar prioridade à velocidade de desenvolvimento em vez da eficiência do software — acontece porque se assume que o hardware irá sempre melhorar o suficiente para compensar. Num mercado competitivo, adicionar mais uma funcionalidade, por mais recursos que consuma, é muitas vezes visto como mais valioso do que otimizar o código existente para ser mais rápido.
Além disso, os modelos de negócio da economia digital contribuem muito para o problema. Muitas aplicações gratuitas são sustentadas por um extenso código de rastreamento e publicidade que corre em segundo plano. Este código consome poder de processamento e memória para recolher dados dos utilizadores, apresentar anúncios direcionados e fazer análises. Tudo isto prejudica o desempenho do seu aparelho de forma invisível. A experiência fluida pela qual pagou está a ser silenciosamente sobrecarregada por processos que nunca aprovou de forma explícita, transformando o seu hardware potente num veículo para a recolha de dados.
As consequências desta tendência vão muito além da frustração pessoal. Alimenta um ciclo de atualizações implacável e dispendioso. Quando um telemóvel com dois anos, em perfeito funcionamento, já não consegue correr o sistema operativo mais recente ou as aplicações essenciais de forma fluida, os consumidores são levados a comprar um aparelho novo. Esta obsolescência forçada não é apenas um fardo financeiro, mas também um problema ambiental significativo. A troca constante de aparelhos é uma das principais causas da crescente crise mundial de lixo eletrónico. De acordo com o Global E-waste Monitor das Nações Unidas, em 2019 foi gerado um recorde de 53,6 milhões de toneladas de lixo eletrónico, um número que se prevê que continue a aumentar. Grande parte deste lixo é composta por aparelhos que ainda funcionam fisicamente, mas que se tornaram inutilizáveis devido às exigências do software.
Este ciclo também aprofunda o fosso digital. À medida que o software se torna mais pesado, acaba por excluir as pessoas que não podem comprar o hardware mais recente e avançado. Uma pessoa com um smartphone mais antigo e económico pode não conseguir usar aplicações essenciais de banca, educação ou emprego, porque o seu aparelho deixa de ser compatível ou é demasiado lento para ser útil. Desta forma, o "inchaço" do software torna-se uma questão de equidade, limitando o acesso ao mundo digital para quem tem menos recursos. Cria um sistema de dois níveis, onde as melhores experiências digitais ficam reservadas para quem pode pagar para se manter na vanguarda do hardware.
Reverter esta tendência exige uma mudança fundamental de mentalidade, tanto dos programadores como dos consumidores. Um movimento crescente na comunidade tecnológica defende um software "leve" ou "otimizado", que dá prioridade à eficiência, à velocidade e ao respeito pelos recursos do utilizador. Ao focar-se nas funcionalidades essenciais e ao otimizar o código, é possível criar aplicações potentes que funcionam bem numa vasta gama de aparelhos, novos e antigos. As empresas também podem descobrir que existe uma vantagem competitiva na eficiência. Uma aplicação mais rápida e responsiva pode levar a um maior envolvimento e satisfação do utilizador e pode alcançar um mercado global mais vasto, que inclui utilizadores com aparelhos menos potentes e ligações à internet mais lentas.
Em última análise, a história da tecnologia moderna é a de um profundo paradoxo. Temos mais poder de computação em bruto do que em qualquer outro momento da história humana, no entanto, sentimos muitas vezes que os seus benefícios nos escapam por entre os dedos, perdidos em código ineficiente e "inchado". A verdadeira inovação não consiste apenas em criar hardware mais potente; consiste em escrever software mais inteligente e sustentável para correr nesse hardware. Até darmos tanta prioridade à eficiência como damos às novas funcionalidades, os nossos aparelhos continuarão a parecer velhos muito antes do tempo, e continuaremos presos num ciclo de desperdício que beneficia poucos e prejudica muitos.