Fuga de cérebros no Irã já esvazia as salas de aula, não só os laboratórios

15 de abril de 2026

Fuga de cérebros no Irã já esvazia as salas de aula, não só os laboratórios

A crise na educação do Irã não começa na universidade. Ela começa muito antes, quando a inflação, os controles na internet e a pressão política levam os melhores alunos e professores a buscar um futuro fora do país.

A história mais simples sobre o sistema educacional do Irã é que a crise real começa quando os formados saem do país. Essa história chega tarde demais. O estrago começa antes, dentro das escolas, dos cursinhos e das salas de aula universitárias. Lá, os alunos aprendem uma lição brutal antes de qualquer outra: o bom desempenho já não garante estabilidade, liberdade ou mesmo um futuro em casa.

O Irã ainda tem pontos fortes na educação. O país tem um longo histórico de alto desempenho acadêmico em matemática, ciência e engenharia. Suas universidades formaram um grande número de profissionais, especialmente em áreas técnicas. A alfabetização aumentou muito ao longo de décadas, e as mulheres conquistaram grandes avanços nas matrículas do ensino superior. Estes não são fatos menores. Eles importam porque mostram que o problema não é um país que falhou em educar. É um país que educou milhões, mas depois teve dificuldade em dar a muitos deles um motivo para ficar.

Os sinais são visíveis em todo o sistema. Organizações internacionais e autoridades iranianas reconhecem há anos o problema da fuga de cérebros no país. As estimativas variam, e muitas declarações públicas têm motivação política, por isso é preciso cautela. Mas o padrão geral é indiscutível. Um grande número de iranianos com alta escolaridade estuda ou trabalha no exterior, e muitos não retornam. Dados da OCDE sobre os países de destino mostram há muito tempo um forte fluxo de estudantes iranianos para lugares como Turquia, Alemanha, Itália, Canadá, Estados Unidos e Austrália. Nos últimos anos, as universidades turcas, em particular, têm atraído mais estudantes iranianos. Isso se deve em parte à geografia, à facilidade de obtenção de visto e aos custos mais baixos do que algumas opções no Ocidente.

Essa pressão para sair não é apenas por prestígio. É por sobrevivência. A economia do Irã foi duramente atingida por sanções, inflação, colapso da moeda e incerteza crônica. O Banco Mundial e o FMI documentaram os repetidos choques de inflação e os períodos de baixo crescimento do país. Para as famílias, isso transforma a educação em um plano de fuga de alto risco. Quando as economias derretem e os salários não acompanham, os pais não perguntam apenas se uma escola é boa. Eles perguntam se um diploma ainda pode funcionar como um passaporte.

Isso mudou profundamente a vida estudantil. Em muitos países, a competição escolar é para entrar em uma boa universidade. No Irã, muitas vezes também é para sair do país. O vestibular nacional, o konkur, é há muito tempo uma das provas mais intensas do país. Ele já moldava a vida dos adolescentes com cursinhos, pressão por classificações e ansiedade familiar. Mas a tensão econômica e política tornou a pressão mais implacável. Para os melhores alunos, a admissão na elite é valorizada não apenas pela oportunidade doméstica, mas por seu papel nos caminhos para a migração, bolsas de estudo, preparação de idiomas e candidaturas no exterior.

O resultado é uma cultura educacional que parece impressionante no papel, mas exausta na realidade. Os alunos correm atrás de diplomas. As famílias gastam rios de dinheiro em aulas particulares. Os professores trabalham em um sistema pressionado por baixos salários, controle ideológico e recursos desiguais. As universidades produzem talentos que veem a emigração não como traição, mas como planejamento racional. Esse é o ponto que muitos governos odeiam admitir: quando um número suficiente de pessoas quer sair, o sistema escolar para de funcionar principalmente como uma escada para o desenvolvimento nacional e começa a funcionar como uma máquina de triagem para a saída.

A recente agitação política agravou o problema. Após os protestos de 2022, que se seguiram à morte de Mahsa Amini, as universidades se tornaram locais visíveis de dissidência e pressão estatal. Relatos de grupos de direitos humanos, redes de estudantes e observadores internacionais descreveram ações disciplinares, suspensões, prisões e um controle mais rígido nos campi. É difícil verificar os números exatos em todos os casos, e o ambiente de informação em torno do Irã é contestado. Mas a realidade geral é clara: a pressão política afetou diretamente a vida dos estudantes. Isso importa educacionalmente, não apenas politicamente. As universidades não prosperam quando o medo se torna parte da rotina.

As restrições à internet adicionam outra camada de danos. Isso não é uma questão secundária. Atinge o próprio aprendizado moderno. Estudantes e pesquisadores iranianos dependem de plataformas globais para acessar artigos científicos, comunidades de programação, aprendizado de idiomas, candidaturas e colaboração remota. As sanções já complicam o acesso a softwares, sistemas de pagamento e ferramentas acadêmicas. A filtragem e os bloqueios domésticos pioram a situação. Um estudante que tenta construir um futuro em ciência, design, medicina ou tecnologia não pode ser competitivo se o acesso básico à economia global do conhecimento for instável. Isso não é retórica ideológica. É sabotagem na prática.

As consequências são mais amplas do que a migração da elite. Quando os professores veem seu status e salário diminuírem, a retenção de profissionais sofre. O Irã tem visto protestos recorrentes de professores por salários e condições nos últimos anos, um sinal de que a tensão atinge muito além das principais universidades. Quando as famílias de classe média sentem que o sistema não protege mais a mobilidade social, a confiança na educação pública enfraquece. Quando os alunos acreditam que a melhor recompensa pela excelência está no exterior, o investimento cívico em casa diminui. E quando o sistema educacional se torna dominado pela pressão dos exames e pela estratégia de migração, a criatividade é esmagada pelo cálculo.

Existe um contra-argumento comum. Alguns dizem que a migração é normal. Estudantes de todos os lugares estudam no exterior. As diásporas podem enviar dinheiro para casa, construir redes e, eventualmente, trazer de volta suas habilidades. Isso é verdade, até certo ponto. A mobilidade internacional não é, por si só, uma crise. Mas há uma diferença entre uma circulação saudável e uma evacuação de mão única. Quando a partida é motivada menos pela curiosidade e mais pelo desespero econômico, pelos limites políticos e pelas perspectivas profissionais bloqueadas, o custo nacional é severo. Um país pode sobreviver a uma certa saída de pessoas. Mas não pode continuar sangrando a confiança de todas as salas de aula ambiciosas e chamar isso de desenvolvimento.

A política educacional sozinha não pode consertar isso. Não se pode convencer os alunos a serem patriotas com discursos enquanto a inflação castiga suas famílias, os pesquisadores enfrentam barreiras para o trabalho global e os formados veem um espaço cada vez menor para autonomia profissional e pessoal. Ainda assim, a política educacional pode fazer mais do que costuma fazer. O Irã poderia reduzir o gargalo dos exames que distorce o ensino médio. Poderia melhorar o salário e a estabilidade dos professores. Poderia dar às universidades mais espaço para respirar academicamente. Poderia expandir bolsas de estudo baseadas no mérito e vinculadas ao serviço público, sem que parecessem coerção. Poderia também reduzir o atrito burocrático e ideológico que afasta os pesquisadores.

Mas a reparação maior exige algo ainda mais básico: fazer com que o sucesso dentro do país pareça real novamente. Isso significa uma política econômica mais previsível, maior liberdade acadêmica, melhor acesso digital e um mercado de trabalho que recompense a habilidade em vez de apenas testar a resistência. Nada disso é simples. As sanções são parte da história, mas não toda. As escolhas da governança doméstica também são parte da história, e fingir o contrário é apenas propaganda de terno e gravata.

O sistema educacional do Irã não entrou em colapso. É exatamente por isso que este momento é tão importante. O país ainda tem talento, disciplina e um profundo respeito cultural pelo aprendizado. Esses são ativos poderosos. Mas também são perecíveis. Se as escolas e universidades continuarem a treinar estudantes para um futuro que eles não acreditam que possa acontecer em casa, a perda não aparecerá apenas nos aeroportos e nos campi estrangeiros. Ela aparecerá antes, na ambição sufocada de adolescentes que estudam muito, mas já não imaginam construir suas vidas onde estão. É aí que a fuga de cérebros se torna uma crise na educação. E é aí que o verdadeiro alarme deve soar.

Source: Editorial Desk

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The World Dispatch

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Category: Education