A Corrida Global pela Energia Verde Está a Gerar um Boom de Mineração Sem Precedentes
29 de março de 2026

A imagem de um futuro verde é muitas vezes a de carros elétricos silenciosos, painéis solares elegantes e turbinas eólicas a girar. É um mundo movido a sol e vento, livre das chaminés e plataformas de petróleo que definiram a era industrial. No entanto, esta transição para energias limpas esconde uma realidade exigente: para construir este novo mundo, temos primeiro de o extrair do solo. A transição global para longe dos combustíveis fósseis está a alimentar um boom sem precedentes na mineração. Isto está a criar um novo conjunto de desafios ambientais e sociais que só agora começamos a enfrentar.
Para colocar a economia global numa base sustentável, precisamos de uma quantidade impressionante de matérias-primas. Um carro elétrico, por exemplo, exige seis vezes mais minerais do que um carro convencional. Um parque eólico em terra precisa de nove vezes mais minerais do que uma central a gás com a mesma capacidade. Não se trata de materiais exóticos, mas sim dos componentes fundamentais da tecnologia verde: cobre para cabos, lítio e cobalto para baterias, e terras raras para os potentes ímanes das turbinas eólicas e dos motores elétricos.
Os números são alarmantes. A Agência Internacional de Energia projeta que, até 2040, a procura mundial de lítio poderá aumentar mais de 40 vezes. A procura de cobalto e níquel, essenciais para baterias de alto desempenho, deverá crescer mais de 20 vezes. Este aumento é uma consequência direta das políticas climáticas globais. À medida que os países se comprometem com metas de emissões líquidas nulas e subsidiam tecnologias limpas, estão a criar um sinal de procura forte e contínuo. Esse sinal propaga-se pelas cadeias de abastecimento globais e chega até às minas.
Esta nova corrida aos recursos é fundamentalmente diferente da do petróleo e do gás. A cadeia de abastecimento de minerais é altamente concentrada. Poucos países dominam a extração e o processamento destes materiais essenciais. Por exemplo, a República Democrática do Congo produz mais de 70% do cobalto mundial. A China refina a maior parte do lítio, cobalto e terras raras do mundo, o que lhe confere uma enorme influência geopolítica. Esta concentração cria vulnerabilidades. Torna o fornecimento de materiais para a transição verde frágil e sujeito a interrupções.
Mais importante ainda, o custo ambiental e humano desta extração pode ser imenso. A mineração de lítio nas salinas do "Triângulo do Lítio" da América do Sul consome grandes quantidades de água em regiões já áridas, ameaçando o sustento de comunidades locais e indígenas. A mineração de cobalto no Congo é tristemente conhecida por estar ligada a condições de trabalho perigosas e a abusos dos direitos humanos, incluindo trabalho infantil. As minas a céu aberto de cobre e níquel podem destruir florestas, poluir fontes de água com resíduos tóxicos e deslocar comunidades inteiras. O paradoxo é claro e desconfortável: a busca para salvar o planeta das alterações climáticas pode agravar a degradação ambiental e a desigualdade social nos locais onde estes minerais essenciais são encontrados.
Esta realidade não significa que a transição verde seja um erro. A necessidade de descarbonizar a nossa economia continua a ser urgente e inegociável. Pelo contrário, significa que devemos abordar a transição com uma perspetiva mais abrangente e honesta. Um futuro verdadeiramente sustentável não pode ser construído com a mesma lógica extrativa que, em primeiro lugar, criou a crise climática. Felizmente, existem caminhos claros para mitigar estes novos desafios.
Primeiro, temos de construir uma economia circular para a tecnologia verde. Atualmente, as taxas de reciclagem de minerais críticos como o lítio são muito baixas, muitas vezes inferiores a 1%. É essencial criar sistemas robustos para recuperar, recondicionar e reutilizar materiais de baterias e eletrónicos velhos para reduzir a pressão por nova mineração. Isto exige que os produtos sejam concebidos para uma desmontagem mais fácil e que se invista em tecnologias de reciclagem avançadas.
Segundo, a inovação na ciência dos materiais pode reduzir a nossa dependência dos minerais mais problemáticos. Os investigadores estão a desenvolver ativamente novas composições para baterias que utilizam materiais mais abundantes e de origem ética, como as baterias de ião de sódio ou à base de ferro. Estas alternativas poderão, eventualmente, substituir as tecnologias que dependem de cobalto e níquel. Isso aliviaria as pressões na cadeia de abastecimento e reduziria o custo humano da produção.
Por fim, devemos exigir e impor padrões ambientais e sociais mais elevados para as operações de mineração a nível global. As empresas, os investidores e os consumidores têm um papel a desempenhar na promoção da transparência e da responsabilização na cadeia de abastecimento. Isto inclui garantir que as comunidades locais beneficiem da riqueza extraída das suas terras e que as operações de mineração não causem danos irreversíveis a ecossistemas sensíveis.
A jornada para um futuro de energia limpa é mais complexa do que simplesmente trocar uma fonte de energia por outra. Exige repensar fundamentalmente a forma como obtemos, usamos e descartamos os materiais que constroem o nosso mundo. O boom da mineração não é um efeito colateral indesejado da transição verde; é uma característica central. Reconhecer este facto é o primeiro passo para o gerir de forma responsável e garantir que o nosso futuro limpo seja também justo e verdadeiramente sustentável.