Os Novos Países-Pêndulo do Mundo Estão a Redesenhar o Mapa do Poder

28 de março de 2026

Os Novos Países-Pêndulo do Mundo Estão a Redesenhar o Mapa do Poder

Durante décadas, a história da política global foi contada pela ótica da competição entre as grandes potências. Primeiro, foram os Estados Unidos contra a União Soviética. Hoje, a narrativa é dominada pela rivalidade estratégica entre Washington e Pequim. Mas esta simples estrutura de dois jogadores está a tornar-se rapidamente obsoleta. Ela ignora a mudança mais dinâmica e consequente nos assuntos internacionais: a ascensão de potências médias influentes que se recusam a escolher um lado. Estas nações, do Brasil à Turquia e da Índia à Arábia Saudita, estão a tornar-se os novos países-pêndulo da geopolítica, e as suas ações estão a reescrever as regras da influência global.

Esta não é uma mudança teórica; os seus efeitos são visíveis em todo o lado. Veja-se o caso da Turquia, um membro da NATO. O país forneceu drones militares essenciais à Ucrânia e, ao mesmo tempo, atuou como um canal diplomático chave para Moscovo, mediando o crucial Acordo de Grãos do Mar Negro em 2022. Considere-se a Índia, membro do diálogo de segurança Quad, liderado pelos EUA. O país aumentou drasticamente as suas compras de petróleo russo desde a invasão da Ucrânia, dando prioridade à sua própria segurança energética em detrimento das sanções ocidentais. No Médio Oriente, a Arábia Saudita surpreendeu os observadores ao restabelecer os laços diplomáticos com o seu rival, o Irão, num acordo mediado pela China, enquanto mantinha a sua profunda parceria de segurança com os Estados Unidos. Estas não são as ações de estados-clientes leais. São os movimentos calculados de potências soberanas que perseguem os seus próprios interesses num mundo onde têm mais opções do que nunca.

O que está a impulsionar esta mudança profunda? A causa principal é a própria mudança na estrutura da ordem global. O "momento unipolar" do pós-Guerra Fria, de domínio americano singular, desvaneceu-se. Embora os EUA continuem a ser a principal potência militar do mundo, a sua influência económica e diplomática relativa tem sido desafiada, não apenas pela China, mas também pelo crescimento coletivo do mundo em desenvolvimento. A ascensão da China tem sido um catalisador fundamental, fornecendo uma fonte alternativa de investimento, tecnologia e parceria diplomática. Isto dá às potências médias uma vantagem significativa. Elas agora podem colocar Washington e Pequim um contra o outro, extraindo concessões de ambos sem se comprometerem totalmente com nenhum deles.

Este desejo pelo que os diplomatas chamam de "autonomia estratégica" é também alimentado por uma confiança crescente dentro destas nações. Décadas de crescimento económico deram a países como a Indonésia, o Brasil e a África do Sul mais peso no cenário mundial. Eles lideram blocos regionais, acolhem cimeiras globais importantes e definem cada vez mais as agendas em temas que vão do comércio às alterações climáticas. A recente expansão do grupo BRICS, para incluir grandes potências energéticas como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, é um sinal claro desta tendência. Demonstra um desejo coletivo de construir instituições que existam fora da estrutura tradicional liderada pelo Ocidente, como o G7 ou o Banco Mundial, criando um cenário mais multipolar.

As consequências desta mudança são imensas e perturbadoras para as potências estabelecidas. O antigo e previsível sistema de alianças está a tornar-se fragmentado e transacional. A lealdade já não é garantida. Para Washington, isto significa que reunir coligações globais em questões como os direitos humanos ou o direito internacional é mais difícil do que nunca. Para Pequim, significa que o seu poder económico não se traduz automaticamente em apoio político fiável. Ambas as superpotências estão a descobrir que a influência tem de ser conquistada e constantemente renegociada, muitas vezes caso a caso. Isto cria um ambiente diplomático mais volátil e imprevisível, onde as crises podem ser mais difíceis de conter, mas onde também podem surgir novas oportunidades de mediação de fontes inesperadas.

Navegar neste novo mundo exigirá uma mudança fundamental na mentalidade das grandes potências. A era de exigir alinhamento e punir a dissidência acabou. O futuro de uma governação eficaz dependerá da persuasão, da flexibilidade e de um respeito genuíno pelos interesses destas nações cada vez mais poderosas. Em vez de os tratar como parceiros menores ou peões num jogo maior, Washington e Pequim precisarão de os abordar como iguais, construindo coligações de vontades baseadas em interesses partilhados, em vez de esperar uma lealdade cega. Para os Estados Unidos, isto pode significar aceitar que um aliado também pode ser parceiro do seu rival em certas questões. Para a China, pode significar aprender que os empréstimos para o desenvolvimento não compram o silêncio político.

O simples tabuleiro de xadrez Leste-Oeste desapareceu para sempre. No seu lugar, há uma arena complexa e com múltiplos jogadores, onde os movimentos mais importantes não são feitos pelos reis e rainhas, mas pelas poderosas torres e bispos no meio do tabuleiro. Estes países-pêndulo não são apenas recetores passivos das tendências globais; eles estão a moldá-las ativamente. As suas decisões coletivas sobre comércio, tecnologia, segurança e diplomacia irão, em última análise, determinar o caráter da ordem global do século XXI. Compreender as suas ambições já não é opcional — é a tarefa central da geopolítica moderna.

Publication

The World Dispatch

Source: Editorial Desk

Category: Geopolitics