O antes e o depois

23 de abril de 2026

O antes e o depois

Escrevo este artigo agora porque considero o seu teor atual e oportuno. Propositadamente para que possa ser publicado antes do dia 25 de Abril, data em que se comemoram 52 anos sobre a madrugada que muitos esperavam. O dia inicial inteiro e limpo onde emergimos da noite e do silêncio e livres habitamos a substância do tempo. Aliás, enquanto houver memória, a atualidade deste assunto nunca se perderá. A oportunidade resulta do facto de andarem por aí uns vendedores de ilusões que, sendo inteligentes, de forma bastante ardilosa dizem coisas que, citando João Miguel Tavares, não são necessariamente falsas, mas são completamente enganadoras. São os mesmos que dizem, com a maior desfaçatez, que são necessários três Salazares para endireitar Portugal. Vamos apelar à memória para que se perceba do que é que estamos a falar e qual era a portugalidade de que alguns se manifestam saudosos. Naquele Portugal abundavam os pobres e a exceção de ricos era ínfima. A maioria da população era analfabeta. As mulheres eram seres menorizados. Viviam sob forte subalternidade legal e social, eram submissas à autoridade do pai ou do marido. Eram impedidas de votar por não terem a escolaridade que lhes era negada, de gerir o próprio dinheiro, de viajar sem autorização do marido do pai ou, na falta deste, do irmão mais velho, além de que eram impedidas de exercer certas profissões, como por exemplo a diplomacia ou a magistratura. A função que lhes estava reservada era a de serem boas esposas, leia-se submissas aos maridos que eram os chefes de família, serem mães e boas parideiras e serem domésticas de forma quase servil. O acesso à saúde era precário, desigual e fragmentado, sem cobertura universal e o acesso dependia da capacidade económica, com o forte pendor caritativo das Misericórdias, previdencial. A taxa de mortalidade infantil era elevada, porque a poliomielite, a tuberculose, a difteria, a coqueluche, o raquitismo ou tosse convulsa eram doenças maioritariamente infantis e matavam. Hoje, são prevenidas com o sistema de vacinação, aquela pequena picadela que faz a grande diferença. Mas as primeiras vacinas surgiram apenas em finais de 1965 e apenas contra a poliomielite, tuberculose e varíola. A Segurança Social surge só depois de 74. Até aí existia um sistema assistencialista, apenas para alguns, tendo sido alargado em 1962 e em 1974 é criado com a democratização e universalidade do sistema. A subsistência da grande maioria dos portugueses era garantida pelo que a terra dava e pelo livro de fiados da mercearia da rua ou da aldeia. A Guerra Colonial Portuguesa durou 13 anos, 3 meses e duas semanas e mais de 800 mil jovens portugueses foram mobilizados, para combater por uma pátria que nada lhes dava em troca e que matou mais de 10 mil militares e deixou feridos e inválidos, alguns milhares. Ficaram viúvas de homens vivos, filhos que não tinham pai e partiram pais que nunca conheceram os filhos. À maioria dos que regressaram, sobrou o caminho de passarem “a salto”, sobretudo para a França para fugir à miséria que era o presente e onde não se vislumbrava futuro. Vinte e cinco de abril, sempre e as vésperas nunca mais! * Advogada

Source: correiodeazemeis

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