A Ilusão do Ataque Cirúrgico Não Pode Ocultar a Realidade Brutal da Guerra Urbana Moderna

28 de março de 2026

A Ilusão do Ataque Cirúrgico Não Pode Ocultar a Realidade Brutal da Guerra Urbana Moderna

Costumamos imaginar que os avanços na tecnologia militar mudaram fundamentalmente a natureza da guerra, transformando campos de batalha caóticos em grades de precisão clínica. A narrativa pública predominante sugere que munições guiadas por laser, vigilância por satélite e inteligência artificial esterilizaram os conflitos armados. Dizem-nos que os exércitos modernos podem agora eliminar ameaças cirurgicamente, deixando a vida civil ao redor relativamente intacta. É uma ilusão reconfortante, reforçada por imagens esverdeadas de drones e coletivas de imprensa que destacam uma precisão absoluta. Esse otimismo tecnológico alimenta uma perigosa complacência, levando o público global a acreditar que os danos colaterais são uma anomalia lamentável, e não uma característica inerente ao combate contemporâneo.

A realidade no terreno conta uma história muito diferente e muito mais sombria. Em vez de se afastar das áreas povoadas, o combate moderno enraizou-se profundamente nos limites das cidades, transformando bairros comuns nos principais teatros de guerra. Dados compilados pela Action on Armed Violence, uma instituição de pesquisa com sede em Londres, mostram consistentemente um padrão devastador ao longo da última década. O seu amplo monitoramento revela que, quando armas explosivas são usadas em áreas urbanas povoadas, cerca de noventa por cento das vítimas resultantes são civis. Essa estatística assustadora destrói a ilusão do ataque cirúrgico e impecável. Análises históricas de batalhas urbanas recentes, como os cercos de meses em Mossul, no Iraque, e em Raqqa, na Síria, entre 2016 e 2017, demonstram essa dura realidade. Mesmo usando munições guiadas com precisão, o imenso poder explosivo necessário para penetrar alvos militares inevitavelmente oblitera blocos de apartamentos, hospitais e escolas adjacentes. Uma bomba inteligente é tão precisa quanto a inteligência que a guia, e, quando lançada sobre um bairro densamente povoado, seu raio de destruição não consegue distinguir um combatente de uma família abrigada.

Essa mudança devastadora para a guerra urbana não é acidental, mas uma evolução tática calculada, nascida da assimetria militar. Insurgências mais fracas e atores não estatais, reconhecendo a esmagadora superioridade tecnológica dos exércitos convencionais modernos em campo aberto, recuam deliberadamente para centros metropolitanos densos. Nos desfiladeiros de concreto das cidades, o campo de batalha é brutalmente nivelado. Pesquisadores do Instituto da Guerra Moderna em West Point destacaram como as redes subterrâneas, os edifícios altos e as ruas estreitas e sinuosas neutralizam as vantagens do reconhecimento aéreo e dos veículos blindados. Os combatentes misturam-se perfeitamente à população civil, usando a própria arquitetura da civilização humana como fortaleza e escudo. Para as forças de ataque, a doutrina de proteção das tropas muitas vezes dita depender fortemente de artilharia e ataques aéreos antes de enviar tropas terrestres para um traiçoeiro labirinto urbano. Essa abordagem metódica e a distância garante imensos danos colaterais, à medida que quarteirões inteiros são sistematicamente destruídos para abrir caminho para a infantaria que avança, independentemente do quão avançados sejam os sistemas de mira.

O impacto humano e infraestrutural desse desgaste urbano estende-se muito além do raio imediato das explosões, criando crises geracionais que duram mais que os próprios combates. Quando os bombardeios pesados comprometem redes elétricas, estações de tratamento de água e redes de saneamento, os efeitos secundários, como é de se prever, matam mais pessoas do que os próprios explosivos. No Iêmen, o longo conflito danificou gravemente a infraestrutura hídrica vital na capital, Sana, e nas regiões vizinhas. Organizações internacionais de saúde ligaram diretamente essa destruição seletiva a um dos piores surtos de cólera da história moderna, que começou em 2016 e infectou milhões de pessoas. Além disso, os escombros físicos do combate urbano deixam para trás um legado mortal e persistente. O Serviço das Nações Unidas de Ação contra Minas documentou extensivamente como milhares de toneladas de munições não detonadas permanecem enterradas sob os escombros das cidades modernas muito depois de as armas silenciarem. Esses perigos ocultos tornam os bairros inabitáveis por anos, mutilando regularmente famílias que tentam regressar e reconstruir as suas vidas. Essa realidade ambiental cria uma profunda cicatriz psicológica, uma vez que o santuário fundamental do lar é permanentemente transformado numa paisagem de terror persistente.

Lidar com essa dura realidade exige uma mudança fundamental de paradigma tanto no direito internacional quanto na doutrina militar. As estruturas tradicionais das Convenções de Genebra, elaboradas principalmente a pensar no combate em campo aberto, lutam para regular adequadamente as nuances únicas dos cercos urbanos modernos. Especialistas jurídicos e organizações humanitárias defendem, cada vez mais, a estrita adesão à recente Declaração Política internacional sobre o uso de armas explosivas em áreas povoadas. Esse documento apela às forças armadas estatais para que restrinjam formalmente o uso de artilharia pesada e grandes bombas aéreas em cidades, estabelecendo uma nova norma global contra impactos em grandes áreas nas zonas civis. As academias militares também devem reformar as suas doutrinas de treino para elevar a redução de danos aos civis, passando-a de uma simples exigência legal secundária a um objetivo estratégico principal. Isso envolve desenvolver novas abordagens táticas que aceitem um maior grau de paciência, em vez de arrasar um bairro para neutralizar um único atirador. Exige também que as indústrias de defesa invistam em tecnologias que limitem fisicamente os raios de explosão e a fragmentação, em vez de se concentrarem apenas em melhorar os algoritmos de mira.

O mito persistente de uma guerra limpa e tecnologicamente precisa serve apenas para higienizar a brutal realidade em que os conflitos armados se transformaram. À medida que a humanidade se urbaniza cada vez mais, com a maioria da população global vivendo hoje em áreas metropolitanas, os campos de batalha do futuro serão, inevitavelmente, os próprios lugares onde vivemos, trabalhamos e criamos as nossas famílias. Confiar no falso conforto dos sistemas de orientação de precisão ignora as evidências inegáveis de que lançar grandes explosivos em bairros densamente povoados sempre resultará em sofrimento catastrófico para os civis. Até que a comunidade internacional exija regulamentações vinculativas mais fortes e as forças armadas adaptem fundamentalmente as suas doutrinas para preservar a vida humana em detrimento da conveniência tática, as nossas cidades continuarão a suportar o peso implacável da guerra moderna. Reconhecer essa amarga verdade é o primeiro passo necessário para conter a devastação e recuperar a santidade da vida civil em meio ao fogo cruzado.

Publication

The World Dispatch

Source: Editorial Desk

Category: Conflict & War