O verdadeiro poder do Irã na energia está no Estreito de Ormuz
1 de abril de 2026

Muita gente acha que o Irã importa para a energia mundial apenas pelo petróleo que extrai. Isso é só parte da história. E nem é a parte mais importante. A maior influência do país vem da sua localização, não apenas do que ele produz. De um lado do Irã fica o Golfo Pérsico. Na sua saída está o Estreito de Ormuz. É uma rota marítima estreita que a economia global não consegue substituir facilmente. Quando a tensão aumenta por lá, governos, empresas e famílias bem longe do Oriente Médio sentem o impacto.
Os números explicam o motivo. O governo dos Estados Unidos sempre diz que o Estreito de Ormuz é o ponto de passagem de petróleo mais importante do mundo. Nos últimos anos, cerca de 20 milhões de barris de petróleo e líquidos passaram por lá todos os dias. Isso é quase um quinto do consumo mundial. O estreito também é fundamental para o gás natural. O Catar é um dos maiores exportadores de GNL do planeta. O país envia grande parte da sua produção por essa mesma rota. Ou seja, um problema nas águas perto do Irã não afetaria apenas o preço do petróleo. Isso também prejudicaria o mercado de gás. O impacto seria forte na Europa e na Ásia, onde as indústrias ainda dependem muito dessas importações.
As exportações do próprio Irã também importam. Mas de um jeito mais limitado do que muitos pensam. Por causa das sanções, o Irã costuma vender menos petróleo do que sua capacidade permitiria. A produção variou com o tempo, mas o país continua sendo um membro importante da OPEP. Ao mesmo tempo, suas vendas sofrem com política, riscos de transporte e barreiras de pagamento. Em outras palavras, a oferta direta do Irã é importante. Porém, o maior medo global costuma ser indireto. O mercado se preocupa menos com a perda dos barris iranianos em si. O verdadeiro temor é o choque que viria se um conflito se espalhar por todo o Golfo.
Esse medo tem base na história. Durante a Guerra dos Petroleiros nos anos 1980, navios no Golfo foram atacados. O conflito entre Irã e Iraque atingiu em cheio o comércio de energia. Em 2019, ataques a navios perto do Estreito de Ormuz e ataques de drones contra instalações da Arábia Saudita mostraram isso de novo. Eles provaram como tensões regionais ameaçam rapidamente o abastecimento. O ataque em Abqaiq, na Arábia Saudita, cortou cerca de 5,7 milhões de barris por dia por um curto período. Isso não aconteceu no Irã. Mas reforçou uma lição que o mercado já sabia. O Golfo é muito conectado. Um problema de segurança em um lugar pode disparar os preços em todo o mundo.
O motivo para essa região importar tanto é simples. Uma grande parte da capacidade extra de produção de petróleo fica em países do Golfo, como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. O petróleo mais barato do mundo também sai de lá. Economias asiáticas como China, Índia, Japão e Coreia do Sul dependem muito desse óleo. A Europa reduziu sua dependência do gás da Rússia desde 2022 comprando mais GNL. E parte desse gás ainda depende de rotas perto do Irã. Assim, até países que tentam fugir de um risco energético podem cair em outro. A segurança energética não depende só de quem produz o combustível. Depende também de ele poder viajar com segurança.
Existem alternativas, mas elas são poucas. A Arábia Saudita tem um oleoduto que leva o óleo do leste até o Mar Vermelho. Os Emirados Árabes Unidos têm um duto de Abu Dhabi até Fujairah, já fora do Estreito de Ormuz. Essas rotas ajudam. Mas elas não conseguem substituir todo o volume que passa pelo estreito. A Agência Internacional de Energia e analistas de mercado sabem disso há muito tempo. As opções de desvio não chegam perto da capacidade total de exportação do Golfo. Se o transporte naval for muito afetado, alguns barris poderiam usar oleodutos. Mas um grande buraco continuaria lá. É por isso que só a ameaça de problemas já mexe com os preços, antes mesmo de faltar combustível.
As consequências vão muito além do mercado financeiro. Saltos no preço do petróleo afetam o custo do transporte, a comida, a indústria, a aviação e o bolso das famílias. Pesquisas sobre crises passadas mostram que a energia cara e incerta faz a inflação subir e a economia frear. Em países importadores mais pobres, o estrago costuma ser maior. Os governos gastam mais com subsídios. As empresas pagam mais caro pela energia. Famílias com orçamento apertado gastam mais com luz e condução. Em 2022, o mundo viu como choques de energia viram problemas políticos rapidamente. Eles geram inflação, revolta pública e aperto nas contas em países bem distantes do risco inicial.
O Irã também importa por estar no centro de um grande equilíbrio da região. Se a diplomacia melhorar e as sanções caírem, o petróleo iraniano pode voltar com força aos mercados. Isso aumentaria a oferta e ajudaria a segurar os preços. Se a tensão aumentar, acontece o oposto. O seguro dos navios sobe de preço. As rotas ficam mais caras. Os compradores precisam buscar outras cargas. Mesmo que o Estreito de Ormuz não seja fechado por completo, o mercado ainda pode sofrer. O comércio fica mais lento, perigoso e caro. Na energia, o próprio medo tem um preço.
É por isso que a pergunta certa não é se o mundo sobrevive sem o petróleo do Irã. A questão é se o mundo se vira sem estabilidade ao redor do Irã. São coisas diferentes. A primeira é difícil, mas não impossível. Especialmente com estoques de segurança e capacidade extra em outros lugares. A segunda é muito mais difícil, porque não dá para aplicar sanções na geografia. Um canal estreito ao lado de uma região cheia de conflitos continua sendo um ponto fraco gigante na economia global.
A resposta prática não é um mistério, mas exige paciência. Os países importadores precisam de fontes variadas, mais armazenamento e planos de emergência fortes. As reservas estratégicas de petróleo ainda importam. Assim como os investimentos em flexibilidade de GNL, novos dutos e redes elétricas melhores. Tudo isso reduz a necessidade de petróleo. O uso mais rápido de carros elétricos e de transportes eficientes também diminui os riscos com o tempo. Quanto menos petróleo o mundo queimar por dia, menos poder um único estreito terá sobre a inflação e o crescimento.
A diplomacia importa tanto quanto a infraestrutura. Rotas marítimas seguras dependem de poder de defesa, ação conjunta das marinhas e conversas constantes entre rivais que não confiam uns nos outros. O mundo já aprendeu várias vezes que o mercado de energia consegue aguentar muitos problemas. Mas sofre quando geografia, conflito e medo se encontram no mesmo lugar.
O papel do Irã na energia mundial é, portanto, muito maior do que mostram as suas vendas de petróleo. Sim, o país é um produtor. Mas, acima de tudo, ele é o guardião de uma das rotas mais sensíveis do comércio global. É por isso que o Irã continua sendo fundamental para o abastecimento do mundo. Não porque todos os barris vêm de lá. Mas porque muitos dos barris mais importantes precisam passar bem perto dele.