Ato dos 30 anos do massacre de Eldorado do CarajaÌs (PA) refaz trajeto das viÌtimas
17 de abril de 2026
Os 30 anos do massacre de Eldorado do CarajaÌs foram lembrados com uma mobilização que percorreu o mesmo trajeto das viÌtimas mortas pela PoliÌcia Militar , em 1996. Um grupo de militantes do movimento sem-terra partiu a peÌ de CurionoÌpolis (PA) com destino ao trecho da BR-155 conhecida como curva do S, onde ocorreu a violeÌ‚ncia -em um percurso de 40 km. Leia mais (04/16/2026 - 23h00)
No trigésimo aniversário de um dos episódios mais sombrios da história recente do Brasil, milhares de manifestantes refizeram nesta sexta-feira o trajeto percorrido por trabalhadores rurais em 1996, pouco antes de serem vítimas do Massacre de Eldorado do Carajás. Organizado pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o ato reuniu cerca de três mil pessoas que marcharam pela rodovia BR-155, no sudeste do Pará, clamando por justiça e pela aceleração da reforma agrária, pautas que permanecem dolorosamente atuais três décadas depois. A marcha partiu de Curionópolis em direção a Eldorado do Carajás, recriando pela primeira vez o caminho exato que foi violentamente interrompido há 30 anos.
Em 17 de abril de 1996, aproximadamente 1.500 agricultores que marchavam para Belém, a capital do estado, foram cercados por 155 policiais militares em um trecho da estrada conhecido como "Curva do S". O objetivo da manifestação original era pressionar pela desapropriação da Fazenda Macaxeira, uma área reivindicada por cerca de 3.500 famílias acampadas na região. A operação policial, autorizada pelo então secretário de segurança do Pará, Paulo Sette Câmara, sob o governo de Almir Gabriel, resultou na morte de 19 trabalhadores no local. Outros dois faleceram nos dias seguintes em decorrência dos ferimentos, elevando o número total de vítimas fatais para 21, além de dezenas de feridos. O evento teve repercussão internacional e transformou a data no Dia Internacional da Luta Camponesa.
O ato anual serve como um memorial vivo para os "Mártires de Eldorado", mas também como um contínuo chamado à ação. A cada ano, o Acampamento Pedagógico da Juventude Sem Terra é montado na "Curva do S", onde debates e atividades de formação política mantêm acesa a memória do massacre e a relevância da luta pela terra. Para sobreviventes e familiares das vítimas, como Edimar de Souza, cujo pai estava na marcha original, refazer o caminho é um ato de resistência e um lembrete de que a violência estatal interrompeu um movimento legítimo por direitos. Essa disputa pela memória é visível até nos monumentos: uma obra projetada por Oscar Niemeyer em homenagem às vítimas foi destruída pouco após sua inauguração, um símbolo do conflito persistente.
A busca por justiça ao longo dessas três décadas é marcada por uma profunda sensação de impunidade. Dos 155 policiais denunciados pelo massacre, apenas dois, os comandantes da operação, foram condenados. O coronel Mário Colares Pantoja, sentenciado a 228 anos de prisão, e o major José Maria Oliveira, condenado a 158 anos, só começaram a cumprir pena 16 anos após o crime. Pantoja morreu em 2020 enquanto cumpria prisão domiciliar, e Oliveira permanece no mesmo regime. A absolvição dos demais policiais e a ausência de responsabilização dos mandantes políticos e de possíveis financiadores do crime alimentam a percepção de que a justiça não foi plenamente alcançada.
Trinta anos depois, o Massacre de Eldorado do Carajás continua a ecoar nos conflitos agrários do Brasil. A concentração de terras e a violência no campo persistem, especialmente no Pará, que ainda registra centenas de áreas de disputa. Movimentos sociais apontam a lentidão do governo em assentar famílias e o orçamento insuficiente para a aquisição de terras como obstáculos à resolução da questão agrária. Para eles, o aniversário do massacre não é apenas uma data para luto, mas uma plataforma para renovar a cobrança por uma reforma agrária efetiva e pelo fim da impunidade, garantindo que a tragédia da "Curva do S" jamais se repita.
Source: folha