Rota dos Milagres, em Alagoas, tem 14 desaparecimentos em 2 anos em meio à expansão de facções
17 de abril de 2026
Ao menos 14 pessoas desapareceram entre 2024 e 2026 na Rota EcoloÌgica dos Milagres, composta pelas cidades turiÌsticas de São Miguel dos Milagres , Porto de Pedras e Passo do Camaragibe, no litoral de Alagoas . Os municiÌpios ficam proÌximos a Maragogi . O governo alagoano diz que investigações tentam encontrar as viÌtimas e responsabilizar os envolvidos. Leia mais (04/17/2026 - 04h15)
Um cenário de medo e incerteza paira sobre a Rota Ecológica dos Milagres, no litoral norte de Alagoas, uma área conhecida por suas praias paradisíacas e turismo de luxo. Nos últimos dois anos, entre 2024 e 2026, pelo menos 14 pessoas desapareceram na região que abrange os municípios de São Miguel dos Milagres, Porto de Pedras e Passo do Camaragibe. As autoridades de segurança pública do estado ligam diretamente esses desaparecimentos forçados à expansão e disputa territorial entre facções criminosas, que transformaram a paisagem social de uma das áreas mais valorizadas do turismo brasileiro.
A escalada da violência está atrelada à intensificação das atividades de grupos como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), além de grupos menores a eles associados. Essas organizações criminosas avançam sobre as comunidades mais vulneráveis, fora do circuito turístico principal, para estabelecer pontos de tráfico de drogas e recrutar jovens. Segundo investigações policiais, a tática do desaparecimento forçado é uma estratégia para eliminar rivais ou membros endividados do próprio grupo, evitando a atenção que homicídios explícitos poderiam gerar e, consequentemente, uma maior mobilização policial. Essa metodologia de ocultar os corpos dificulta as investigações e a responsabilização dos criminosos.
Em resposta à crise, o governo de Alagoas, através da Secretaria de Segurança Pública (SSP), afirmou que investiga os casos e atua para encontrar as vítimas e prender os responsáveis. Foi criada uma equipe de inteligência dedicada à região para enfrentar a atuação das facções. A versão oficial da SSP é que todas as pessoas desaparecidas, majoritariamente homens jovens, teriam algum tipo de ligação, direta ou indireta, com o tráfico de drogas, seja por dívidas ou por envolvimento com os grupos. O secretário de Segurança Pública, Flávio Saraiva, levantou a hipótese de que alguns desaparecidos possam ter fugido para salvar suas vidas, mas não descartou que sejam vítimas de execuções.
Essa narrativa oficial, no entanto, é contestada por familiares das vítimas. Mães dos desaparecidos admitem que alguns de seus filhos eram usuários de drogas, mas negam veementemente qualquer envolvimento deles com o crime organizado. Para essas famílias, resta a angústia de não saber o paradeiro de seus entes queridos e a dor de não poderem realizar um enterro digno, presas em um ciclo de sofrimento constante. A "lei do silêncio", imposta pelo medo de represálias, também se tornou um grande obstáculo para o avanço das investigações, pois testemunhas se recusam a colaborar com a polícia.
Enquanto a violência se aprofunda nas áreas periféricas, as autoridades afirmam que o setor turístico, principal motor econômico da região, ainda não foi diretamente impactado. Contudo, a situação revela a complexa dinâmica social por trás do cartão-postal. As operações policiais se intensificaram, resultando em confrontos e prisões, mas o desafio de conter a expansão das facções permanece. O futuro da Rota dos Milagres depende da capacidade do poder público de não apenas reprimir a violência imediata, mas também de implementar políticas sociais eficazes que ofereçam alternativas aos jovens cooptados pelo crime, quebrando o ciclo de vulnerabilidade que alimenta a crise de segurança na região.
Source: folha