Marisqueiras em Pernambuco dizem que poluição e chuva irregular impactam renda
15 de abril de 2026
HaÌ quatro gerações, as integrantes da ColoÌ‚nia de Pescadores Z-20, na cidade de Igarassu (a 33 km de Recife ), dedicam-se aÌ€ captura de marisco, sururu e siri. PoreÌm, o conhecimento tradicional sobre a mareÌ, os ventos e a Lua não tem sido suficiente para driblar as mudanças ambientais que afetam a rotina e a renda delas. Leia mais (04/15/2026 - 07h00)
As comunidades de marisqueiras em Pernambuco enfrentam uma crescente ameaça à sua subsistência, com a poluição e a irregularidade das chuvas impactando diretamente a quantidade de mariscos e, consequentemente, a sua renda. Mulheres que há gerações dependem dos manguezais e estuários para o sustento de suas famílias agora encontram um cenário de incerteza e redução drástica no seu trabalho. A diminuição da quantidade de moluscos não é apenas uma percepção, mas uma realidade confirmada pela queda abrupta na coleta diária, que em alguns casos despencou de vários quilos para meras gramas.
A degradação ambiental se apresenta como a principal causa dessa crise. Rios como o Capibaribe recebem um volume alarmante de lixo, incluindo plásticos, eletrodomésticos e outros detritos que comprometem a qualidade da água. Essa poluição, somada ao esgoto doméstico e industrial lançado sem tratamento, afeta a saúde dos ecossistemas estuarinos. Especialistas alertam que os moluscos são extremamente sensíveis às alterações ambientais, e a contaminação compromete seu sistema imunológico, tornando-os mais vulneráveis e prejudicando sua capacidade de crescimento e reprodução.
Paralelamente à poluição, as mudanças climáticas impõem um desafio adicional. O regime de chuvas, que tradicionalmente seguia um padrão conhecido e respeitado pelas marisqueiras, tornou-se imprevisível. Períodos de chuvas intensas e concentradas, seguidos por estiagens, têm sido cada vez mais frequentes, segundo dados da Agência Pernambucana de Águas e Clima. Essa irregularidade afeta diretamente o ciclo reprodutivo dos mariscos, que depende de condições específicas de salinidade da água, alterada pelo volume de água doce que chega aos estuários. Valma Ramalho, presidente de uma colônia de pescadores em Igarassu, relata que, com as chuvas tardias e escassas dos últimos anos, o marisco não consegue se desenvolver plenamente.
O impacto na vida das marisqueiras é profundo e multifacetado. A redução da pesca significa menos alimento e menos dinheiro para as despesas básicas, gerando insegurança financeira e alimentar. Relatos de ansiedade e depressão têm se tornado comuns em algumas comunidades, onde o futuro da atividade passada de mãe para filha se tornou incerto. Para muitas, como Edileuza Nascimento, uma pescadora de 70 anos reconhecida como Patrimônio Vivo de Pernambuco, a mudança é triste e evidente, transformando uma relação de décadas com o rio em uma luta diária contra a escassez.
Diante deste cenário adverso, as comunidades não estão paradas. As marisqueiras têm se organizado para lutar por seus direitos e buscar soluções. Uma das principais reivindicações é a criação de um período de seguro-defeso específico para o marisco, entre maio e setembro, que garantiria uma compensação financeira durante a fase de maior reprodução dos animais, permitindo a recuperação dos estoques. Além da luta política, iniciativas locais de recuperação ambiental, como o replantio de mangues, demonstram o compromisso dessas mulheres com a preservação do ecossistema do qual dependem, mostrando que o conhecimento tradicional pode e deve ser um aliado na busca por um futuro mais sustentável.
Source: folha